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O TREINAMENTO DE BRUCE LEE
Bruce Lee, sem dúvida alguma foi um
dos homens mais letais que o mundo conheceu, conseguiu alcançar um desenvolvimento e uma
perfeição física realmente invejáveis. Mas a pergunta que todos gostariam de ver
respondida é: "Como chegou a isso ?"
Para se falar do treinamento de Bruce um livro não bastaria ! Todavia
procurei explanar sobre o assunto numa visão simplificada.
"Força em si não é conhecimento e conhecimento não é
treinamento, mas combine conhecimento com treinamento e você obterá força."
De todas as suas muitas propriedades, a que Bruce mais valorizou foi
seu próprio corpo. E o fez numa extensão que a muitos parecia excêntrica, até
fanática, visando sempre manter seu físico em perfeita forma. Seu ginásio era um templo
para o desenvolvimento da aptidão e do ajustamento físicos, sendo equipado com toda a
espécie de aparatos e tendo várias paredes revestidas de espelhos para que ele pudesse
observar melhor seus próprios exercícios e movimentos.
Para manter-se em perfeita saúde, Bruce tomava muito cuidado com o que
ingeria, acreditando que "você é o que come !", não fumava e não ingeria
bebidas alcoólicas. Mas nem tudo que era bom para Bruce era bom para as outras pessoas.
Quando Robert Lee, seu irmão, chegou aos Estados Unidos vindo de Hong
Kong, Bruce que o esperava no aeroporto deu um passo atrás com expressão de espanto e
exclamou: "Jesus ! Como você está magro ! Não diga a nínguém que você é meu
irmão, pois me embaçaria !". Robert foi levado à casa de Bruce em Bel Air e já na
manhã seguinte era acordado cedo, recebia um par de tênis e era obrigado a correr três
milhas ( 4 Km e 8 m ). A seguir era compungido a beber uma mistura que o próprio Bruce
preparava no liquidificador a fim de assegurar-se de que seu irmão beberia tudo. Para
Bruce, que estava acostumado a ingeri-la sempre, era saborosa ... mas para os outros não
era nada agradável !. Bruce parecia um sargento do exército ! Todos os dias vinha com
aquela mistura de leite, proteína em pó, bananas, gelo, ovos com casca e manteiga de
amendoim.
Mas Bruce não será lembrado como um dietista, nem o poderia ser. Seu
corpo era desenvolvido dentro de um modelo de graça e perfeição muscular, sem a
deformidade de tendões e nervos dos praticantes de musculação. O corpo de Lee era um
instrumento de genuína beleza e ele chegou a isso através de uma série de cuidadosos e
apropriados exercícios e treinamentos os quais, felizmente, foram registrados e deixados
para nós numa abundância de entrevistas, artigos, testemunhos e notas pessoais.
O desenvolvimento de tal perfeição física, conforme Lee
enfaticamente assinalava, não é um fim em si mesmo; é, antes, segundo suas próprias
palavras ... "Um dedo apontando para a lua. Por favor, não tomem o dedo pela lua!
Nem fixem o olhar tão atentamente no dedo a ponto de omitir a bela visão dos céus. A
utilidade do dedo é assinalar, além dele mesmo, a luz que o ilumina e a tudo mais".
Um dos melhores meios de se manter um cosntante nível de excelência
física e de estabelecer uma base de aptidão a partir da qual pode-se progredir
infinitamente é, de acordo com Lee, CORRER. Durante toda sua vida ele recomendou esse
tão simples e disponível exercício, dizendo: "Se você não estiver fisicamente
ajustado, não deve entregar-se diretamente a um árduo treinamento. Para mim, um dos
melhores exercícios é correr. Correr é tão importante que se deve praticá-lo durante
toda a vida. A que horas do dia você corra não importa. No início você deve correr
naturalmente, como num cômodo "trotar". Depois, gradualmente aumentar a
distância e o "tempo" ( apalavra "tempo" aqui não se refere à
"duração" do exercício, mas significa o seguinte: - Esse pequeno fragmento de
período - um compasso em cadência - que é mais adequado à realização efetiva de uma
ação é chamado de tempo. Bruce Lee - Tao of Jeet Kune Do, pág. 64 ) - aqui seria o
"ritmo" da corrida. - E finalmente incluir arranques para desenvolver seu
fôlego".
Bruce corria seis dias por semana entre 15 a 45 minutos, percorrendo
entre 2 e 6 milhas ( cerca de 3 e 9 Km e meio ) quase sempre na companhia entusiástica de
seu enorme cão dinamarquês "Bobo". corria não importava onde: na praia, nos
bosques, nas colinas ( aliás gostava de correr subindo encostas íngremes ), ou mesmo nas
ruas em horas do nascer do dia. Variava o ritmo, passava de um "tempo" moderado
a violentos arranques seguidos de um ritmo mais lento e compassado. Saltava, corria em
zigue-zague e incorporava em sua corrida qualquer elemento que pudesse servir para
melhorar algum aspecto físico em especial.
Outra forma de exercícios regulares que Lee empregava eram os Tai-Chi
- série de contorsões e movimentos lentos empregados como terapia para amente e para o
corpo como meditação e exercício físico. A origem dos Tai-Chi remonta a épocas bem
remotas ... O monge chamado Chang San Fen estava meditando certa noite quando um ruído
interrompeu sua concentração. Era uma cobra, cabeça erta, sibilando sob o ataque de um
grou. Conforme a ave arremetia o ataque, a cobra desviava-se para um lado ou para outro
golpeando o grou com a cauda. Quando o grou protegia uma parte do corpo, a cobra era capaz
de deslizar e golpear outra, sempre fora do alcance da ave. Finalmente o grou, impotente e
desiludido voou frustado enquanto a cobra voltava à sua toca. Chang percebeu, então, a
lição do valor do elemento mais fraco curvar-se ante o ataque do mais forte.
E assim começou a estudar métodos de combate usados pelos animais.
Preparou-os depois num estilo de exercícios conhecidos como Tai-Chi baseados no seguinte
princípio: "O que é mais maleável do que a água ? No entanto, a água pode
desgastar a mais dura rocha".
O próprio Lee falava de tais exercícios relacionando-os ou
comparando-os com a água: "Como a água, devem ser amorfos. Coloque a água numa
xícara, ela se tornará parte da xícara; coloque-a numa garrafa, ela se tornará parte
da garrafa. Tente golpeá-la, ela cederá mas não sofrerá dano: é maleável ! Tente
agarrá-la, ela não oporá resistência mas lhe escapará por entre os dedos ... de fato,
escapará na medida em que a pressão for sendo aplicada sobre ela. Quanta verdade há no
princípio de que o nada não pode ser confinado, de que a coisa mais suave do universo
não pode ser quebrada e de a mais maleável não pode ser moldada !".
Bruce nunca se absteve da prática de exercícios. Amigos testemunham
que jamais o viram el lazer; estava sempre fazendo algo, trabalhando alguma parte do
corpo, buscando métodos de treinamento cada vez mais sofisticados e exaustivos. Mesmo
conversando, jantando ou vendo TV, ele estava se exercitando, pressionando uma das mãos
contra a beira da mesa ou flexionando os músculos da coxa. Linda Lee, sua esposa, conta
quão freqüentemente o encontrava com um livro numa das mãos, lendo ... e um haltere na
outra ! Mesmo estudando estava exercitando algum músculo. Conta como, muitas vezes, ele
interrompia de repente a mais interessante conversa para rabiscar um novo tipo de
exercício que houvesse cruzado sua mente.
James Coburn relata que, em certa ocasião, viajando num vôo com Lee,
este alternadamente socava um coxim com um e outro punho. Depois de certo tempo, Coburn
já irritado queixou-se ... - "Sinto, exclamou Lee, mas tenho que me manter em
forma".
De todos os exercícios "naturais", isto é, os que não
requerem equipamento ou técnica especial, que Lee empregava provavelmente os mais
exaustivos eram os exercícios isométricos. Exercício isométrico é todo aquele
através do qual os músculos são trabalhados por se oporem contra um objeto imóvel -
como uma parede. Lee ficava uma hora empurrando um gradil como o dorso mão !
Para se term uma idéia de quanta tensão isso pode causar nos
músculos do braço, tente ficar em frente a uma parede, com o corpo perfeitamente ereto e
empurre-a com o dorso das mãos. Mantenha-se assim durante uns três ou quatro minutos.
Depois recue um passo e deixe os braços caírem, soltos ... eles
movimentar-se-ão para cima sozinhos. Agora tente fazer isso durante uma hora !
Lee usava exercícios isométricos para desenvolver muitos músculos de
seu corpo. Um meio efetivo de fazer pressão em tantos músculos quanto possível, num
único exercício, era o uso que fazia da barra isométrica que ele mesmo aperfeiçoou em
seu ginásio. Era uma barra de metal acolchoada no meio, que podia ser colocada em
qualquer altura entre duas peças verticais de sua armação. Colocada usualmente na
altura exata do ombro, Lee ficava sob ela, tendo os ombros e o dorso do pescoço contra a
parte acolchoada e então a empurrava para cima. Assim, os músculos da panturrilha, coxa
e estômago eram trabalhados. E colocando as mãos nos lados da parte acolchoada, sempre
empurrando a barra para cima, os músuclos dos braços também eram trabalhados.
Lee se referia às suas mãos e pés, braços e pernas como
instrumentos do ofício e conseqüentemente faria de tudo para mantê-los afiados dentro
de primorosa forma.
Bruce usava muito a bicicleta ergométrica para desenvolver
resistência cardiovascular e o poder de suas fabulosas pernas, pedalando a toda
velocidade uns 60 Km por hora durante 45 minutos.
Pulava corda com um ou dois pés, alternando-os, ou sobre um pé
mantendo o outro à frente, aumentando o ritmo até alcançar um "tempo"
realmente veloz. Procurava minimizar os movimentos de braços, levantando os pés do chão
apenas o suficente para passar a corda e não mais. Para os principiantes recomendava
pular 3 minutos seguidos, descansar 1 minutos e assim sucessivamente. Porém Bruce pulava
de forma contínua (sem pausa) durante 30 minutos.
Outro exercício a que Bruce se entregava era a prática de impacto com
a "Medicine-ball". Um companheiro lançava com força a bola ( do tamanho de uma
bola de futebol ) contra a zona abdominal de Lee, estando este em pé ou deitado.
Os golpes produzidos pela força do lançamento iam aumentando até
causar impactos verdadeiramente consideráveis. Essa prática durava em média 20 minutos
e foi, em grande parte, responsável pelo assombroso desenvolvimento de sua parede
abdominal. O abdomem, por ser a delicada zona de união entre o tronco e as pernas deve
funcionar com precisão e potência em uníssono com os membros superiores e inferiores
para a aplicação correta de qualquer técnica. Tem de possuir paredes fortes e
flexíveis para absorver qualquer impacto de golpe do adversário numa zona vital sem
proteção óssea e cuja defesa se reduz a uma poderosa parede muscular. Flexões
abdominais também auxiliam muito nesse desenvolvimento muscular.
Bruce fazia ainda exercícios de elevação de tronco em mesa inclinada
( 5 a 8 séries de 50 repetições ) e elevação de pernas em ponte. Elevação de pernas
sobre barra fixa, envolvendo ou não a sola do pé com a mão. Praticava saltos com
abertura de pernas, tocando os dedos do pé com as pontas dos dedos da mão em pleno ar.
Saltos mantendo nas mãos peso ( halteres ) entre 5 e 15 Kg.
O peso utilizado era em função do número de repetições ( saltos )
da sessão de treinamento. O uso do trampolim em certos saltos ajudava-o a desenvolver a
elasticidade e a flexibilidade.
Para trabalhar os músculos dorsais, Bruce não se preocupava com pesos
máximos, porém usava cargas mais que consideráveis em séries velocíssimas e quase sem
descanso ( 4 a 5 séries de 20 repetições com 5 segundos de descanso entre uma e outra
série ).
Não há dados exatos sobre os pesos que Bruce utilizava porque
simplesmente Bruce jamis os levou em conta. A única coisa que importava era a sensação
de trabalhar contra resistências que o faziam esforçar-se. Não obstante, alguns
companheiros que tiveram o privilégio de trabalhar com ele asseguram que chegou a usar
até 80 ou mesmo 90 Kg ( embora sua média fosse 50 Kg ) em grande velocidade.
Mover tais pesos na velocidade em que os movia era uma verdadeira
façanha.
Mas para Lee era apenas um complemento de sua arte. Seus fabulosos
antebraços ( duros como pedra e capazes de aparar o golpe mais violento sem receber dano
) e seus poderosos ombros eram trabalhados duramente no levantamento de pesos longos com
um braço de cada vez, prática dificílima devido à dificuldade de equilíbrio e à
longitude do instrumento usado ( barra longa de levantamento terra com pesos nas pontas ).
Usava, ainda, um haltere curto, sem o peso na extremidade que servia de
"cabo" para segurar ( o outro peso era mantido, dando oa haltere forma de
marreta ).
Lee girava-o para trás e para frente e em círculos sem mover o
braço, isto é, com torsão apenas do pulso. Para exercitar os antebraços suportava
pesos durante o maior tempo possível com os braços estendidos ( na altura do peito ).
Exercitava ainda os antebraços no aparato isométrico, realizando
bloqueios específicos contra o mesmo que era especialmente desenhado para este fim.
Bruce costumava criar, ele próprio, a maior parte de seus equipamentos
( os que adquiria eram sempre modificados, aperfeiçoados e melhorados para atender às
suas necessidades ) e procurava torná-los o mais "realista" quanto fosse
possível, de modo com que "reagissem" a ele em diferentes ângulos, obrigando-o
a mudar, mover-se, estar alerta e ativo !
Stirling Silliphant lembra que Bruce tinha um aparelho para estiramento
de pernas: - "Você colocava a perna num laço e uma carretilha puxava uma corda
estirando sua perna além do limite da resistência humana. Não é à toa que falam tanto
sobre tortura chinesa ! eu costumava dizer a Bruce.
Bruce tinha também em sua garagem um saco gigantesco medindo 5 pés (
1 metro e 65 cm ) de largura por 8 pés ( 2 metros e 65 cm ) de altura. Esse saco ocupava
metade do espaço da garagem ! Absorvia poder e força extra como nenhuma outra coisa no
mundo o faria ! Era duro fazê-lo mover-se, era como chutar um tronco de árvore ... e
pensar que Bruce podia enviá-lo voando com o seu melhor chute !
Bruce sempre enfatizou, entretanto, que o melhor equipamento não pode
simular condições de combate real, por isso insistia em usar um parceiro sempre que
possível. Mas com referência aos exercícios que usava, ele insistia: "Um
exercício tem que ser funcional. Tem que ser o mais próximo possível da realidade
!"
O chute de Lee era tão funcional que os chineses apelidaram-no "O
homem de três pernas" ( por poder chtar direita-esquerda-direita consecutivamente
num só chute ) Lee desenvolveu a potência e incrível rapidez de seu chute através de,
entre outras coisas, cuidadoso uso do "gym cycle", do estirador de pernas e da
barra alta. Quando os músculos estavam desenvolvidos, já prontos, ele treinava chutando
árvores. Sim, árvores ... não novas e finas, mas frondosas, de tronco firme como
colunas de concreto.